Educação Inclusiva

Professores debatem metodologia de ensino para alunos surdos no Campus Passos

LIBRAS TEXTO1Na quinta-feira (08/02), cerca de 50 servidores estiveram envolvidos no Simpósio “Tenho um aluno surdo na minha sala de aula. E agora?” Duas palestras, ministradas pelos professores Johnny dos Santos (IF – Campus Passos) e Rimar Segala (UFSCAR), abordaram o tema, que teve enfoque em metodologia de ensino e experiências de um surdo.

A atividade foi proposta pelo Núcleo de Apoio a Pessoas com Necessidades Educacionais Especiais (NAPNE) do Campus Passos com o intuito de atender uma demanda dos próprios professores: como trabalhar com alunos com necessidades especiais, sobretudo com a estudante surda Letícia Kênia Alves, matriculada no 3º ano do curso Técnico Integrado de Moda. As duas palestras contaram com o apoio da intérprete de Língua de Sinais e também coordenadora do NAPNE, Karoline Nascimento.

Práticas e perspectivas

Em sua fala, o professor Johnny contou sobre algumas experiências como tradutor e compartilhou algumas dicas de metodologia de ensino, salientando a importância de os servidores terem uma nova visão sobre a educação dos surdos, pois “alguns se deparam com um aluno surdo e muitas vezes não sabem como agir”. O docente enfatizou também que a língua natural das pessoas surdas é a Libras, e não a portuguesa. “Eles utilizam o visual e o gestual, por isso usem bastantes recursos como mapas, desenhos e esquemas”.LIBRAS TEXTO2

O professor comentou ainda que alguns colegas do campus já têm realizado algumas ações assertivas com a aluna surda, como avaliações orais e por meio de desenhos. Além disso, ele frisou que é importante que os professores sempre conversem com o aluno surdo para saber como ele é, quando aprendeu Libras e qual a relação dele com a Língua Portuguesa. “Não tem uma receita, cada caso é um caso e isso precisa ser levado em conta ao planejarmos nossa aula. Temos que ter em mente que a surdez é só mais uma das diversidades presentes em sala de aula”.

A história da aluna Letícia confirma a importância desse olhar atento por parte dos professores. Única surda da família e não alfabetizada na Língua Portuguesa, ela conta que o primeiro ano foi o mais difícil de todos e que chegou a pensar em desistir várias vezes do curso, principalmente depois de ter sido reprovada. “Fiquei assustada, eram muitas disciplinas, muitos professores. Às vezes, estava lá na aula, mas não conseguia entender nada”. Com o tempo, com a ajuda dos professores e da intérprete de Libras, ela enfrentou as adversidades e, hoje, comemora o resultado “Me esforcei, tentei de novo e agora estou no último ano. Graças aos professores, que adaptaram as atividades, e à Karol, que me ajudou a organizar meus horários de estudos”.

Identidade e desafios

A conversa com o professor Rimar uniu humor e emoção. Com a ajuda dos intérpretes, ele deu um breve depoimento de sua vida como surdo. “Venho de uma família inteira de surdos. Pais, avós, tios, primos. Quando nasci, deram graças a Deus por eu ser surdo também, pois era como eles, era maioria. Aí, cresci e vi que eu era, na verdade, a minoria, que a sociedade me rotulava, me chamava de surdo, de problemático. Percebi que existe uma maioria que impõe regras e que nós, portanto, devemos obedecer”.

LIBRAS TEXTO3Hoje, depois de três faculdades e de um doutorado em curso, ele tem consciência de que ainda existem vários desafios para a população surda. “Até tem legislação que trata dos nossos direitos, mas não existem profissionais preparados para efetivar a comunicação da língua de sinais dentro das escolas, principalmente na educação infantil, fase mais importante”, destacou. O pesquisador atribui, também, seu sucesso à família. “Eu só tenho a agradecer a minha família, por ter tido uma base linguística e por ter aprendido a língua de sinais desde pequeno”.

Coincidentemente, nesta quinta-feira, a professora de Artes Naiara Campos deu sua primeira aula para a Letícia. Em reunião, ela havia sido informada sobre a aluna surda, então pôde preparar “uma aula com mais estímulos visuais, para que ela pudesse, junto com o que estava sendo traduzido, assimilar melhor. Ela foi uma das razões fundamentais para eu escolher fazer a aula dessa forma”.

A docente aprovou a iniciativa do NAPNE e ressaltou que, ainda que tivesse conhecimento em relação a possibilidades de trabalhar a inclusão dentro de sala de aula, ambas as palestras foram esclarecedoras. “Já tinha pensado em usar prova oral, mas não respostas com desenhos. Os dois professores apontaram caminhos possíveis na construção de uma educação inclusiva não só para Letícia, mas para a sala como um todo”.

Ascom/ IFSULDEMINAS - Campus Passos

09/02/2017